A viagem das almas

O veleiro rumava na direção de um único propósito, todos sabiam que era longínquo. Era um mar imenso nunca antes navegado por esses que o barco carregava nas suas entranhas. O tempo corria entre tempestades e calmarias. À vista nem terra, nem pássaros nem algas, apenas água e suas populações marítimas por vezes vagamente visíveis e confortantes, outras terríveis e ameaçadoras.

 Homens, mulheres e crianças, trabalhavam com o objetivo de que todos chegassem ao fim da viagem não só salvos e sãos, mas também revigorados com desconhecidas energias. Cada um trabalhava naquilo que melhor sabia fazer usando seus dons e vocação. Não havia capitão, mas um grupo perito em navegação. Não havia serviçais, mas a vontade de todos em manter a boa direção sem enganos, faltas e doenças que os enfraquecessem e os levassem a se renderem a ilusões de que qualquer porto os tiraria daquele Nada.
 
  Eles sabiam que mais cedo ou mais tarde teriam de chegar ao alvo - o qual há muitos milhares de anos eles mesmo tinham escolhido e decidido quando deram um voto voluntário de que tudo fariam para aí chegar. Quando algum se desanimava perante aquela água e aquele Nada outro o lembrava do compromisso assumido perante si mesmo e a eternidade. Com isso a esperança aumentava para que a coragem e a vontade pudessem agir sem hesitação.
 
  Mas a maioria eram viajantes de nuvens e espumas de algodão que sofriam de esquecimento. Iam percorrendo tempos sem tempo desgastavam-se em procuras ilusórias, certezas mentirosas, ideias sem sentido e incoerências juradas em livros sagrados. Quando se julgavam reabilitados agradeciam milagres a anjos indiferentes que apenas sabiam tocar harpas. Eles não entendiam que suas vontades, esforços e a certeza de um objetivo eram o caminho. Só esse leme os poderia levar ao crescimento enquanto aprendiam a descobrir quem eram – um protótipo divino. Entretanto não passavam de farrapos e sem força para se manterem de pé. Nessa fraqueza permitiam que vendavais os rasgassem, enquanto lhes acariciavam as feridas necessárias com dentes podres - para depois os atirar ao mar onde eram engolidos por baleias imensas para voltar a sair e nadar com frenesi e desvario até chegarem ao delírio capaz de comover as velas de um veleiro que impávido cruzava ondas ancestrais. Paixões indomáveis, amores inigualáveis os levavam a sentir a essência do que eram, mas logo se acomodavam e esqueciam a magia e o encantamento.

  Entre os viajantes muitos falavam repetindo frases impedindo os outros de pensar. Alguns colocavam bombas na mão de crianças e ainda havia quem produzisse coroas douradas para escravizar e manipular os companheiros. Tudo isso e muito mais os fazia esquecer o objetivo da viagem. Saíram da espiral e entraram na roda da repetição, de onde para sair só podiam cair no mar onde novamente eram comidos por polvos e tubarões para tornar a voltar. Muitos outros ficavam inebriados com o que viam para lá dos muros da mente, mas logo alguém lhes mentia, dizendo ser pecado espreitar os desígnios dos que vivem nas estrelas. Tristemente, eles passaram a acreditar que as virtudes estavam no fim do intestino, jamais nas solas dos pés ou na ponta dos cabelos.

  Ao redor do veleiro havia pequenos barcos. Cada um com suas respectivas ferramentas de navegação e qualquer um dos passageiros poderia aí embarcar e seguir rumo ao porto mais próximo, visto que ninguém era obrigado a acreditar no propósito da viagem que a maior parte já tinha esquecido. Na realidade, tudo tinha sido uma escolha individual voluntária e consciente que com as dificuldades do dia a dia muitos enfeitavam de lendas e mitos impossíveis. Porém, a realidade era que todos os “Marítimos” tinham assumido esse compromisso dentro da sua própria liberdade de expressão – a expressão da alma e de uma força que vinha do genoma ou algo além si mesmos. Talvez um “padrão gravado”, que os impulsionava e que eles nem tentavam explicar com palavras, as quais muitas vezes apenas entorpecem a realidade do sentir. Essa era a razão pela qual mesmo quando tudo era esquecido sempre havia no seu centro uma voz que gritava palavras lindas, mas em línguas desconhecidas, que os levavam a parar a desenfreada loucura de descer e subir escadas que jamais os levariam ao topo dos mastros.

  Muitos, os que estavam mais perto do objetivo, realizavam-se quanto mais fiéis fossem a si mesmo, ou seja, a um compromisso indefinível e singular, talvez relacionado com uma obra tão humana quanto Universal. Sentiam-se ligados a humanidades desconhecidas, as quais precisavam tanto desse grupo de “Marítimos” como de si mesmas. Isso os levava a sentir uma responsabilidade fundamental, onde o benefício era a liberdade do Todo.
 
  No desenvolvimento dessa tarefa, na responsabilidade perante si mesmos e na alegria individual em poder participar do desenvolvimento de algo muito além da própria compreensão, os “Marítimos” sentiam que algo muito poderoso desabrochava em suas almas. Eles cresciam cada vez mais - ao ponto de por vezes sentirem que visitavam o interior das estrelas que já viam tão de perto, na crista de cada onda... 

  O princípio fundamental do universo a que muitos erradamente chamavam “deus”, era algo que excedia a compreensão de muitos... talvez de todos... Contudo, esses “Marítimos” tentavam transcender os limites para se fundirem a algo desconhecido, mas que certamente existia, mesmo arriscando tudo aquilo que lhes dava segurança, tudo aquilo que possuíam e que tinham aprendido - como ideias, conceitos e crenças. Isso os fazia sentir o chão, o barco, o ar e a própria água ou a própria Terra fugir debaixo de seus pés. Mas por outro lado, todo esse desprendimento provocou uma vertigem que passou a ser bem vinda e que cada vez mais lhes dava não vontade de cair, mas vontade de voar. Na procura por um novo princípio que lhes confirmasse a razão da suas próprias vidas e da existência passaram a usar outro nível de inteligência para melhor se autoconhecerem e assim entenderem os maiores segredos e mistérios.

  O dia chegou em que já nem precisavam de bússola ou sextante. Os astros que os guiavam não mais eram a Estrela Polar nem o Cruzeiro do Sul, mas sim “aqueles” que eles mesmo viriam a ser depois de ancorar no porto almejado desde o princípio dos princípios. Em todos aconteciam fenômenos e experiências que o ajudavam a ver luzes, cores e dimensões que os levavam a acreditar que estavam na rota certa.
 
  Nessa longa viagem e na solidão necessária aprenderam a se conhecer, a descobrir quem realmente eram, a sua verdadeira relação com a Vida, com a Humanidade e com o Divino tão dentro deles como em tudo o que os rodeava, desde o centro da Terra até à galáxia mais longínqua. Já beirando o almejado porto o veleiro ficou dividido entre os que Sabiam que estavam perto do objetivo da viagem e os que ainda tinham muito que remar e velejar, assim como tornarem a serem comidos por baleias e tubarões, serem enganados, escravizados e também amados, para que por fim pudessem encontrar o caminho da Verdade, da Sabedoria e da Liberdade.

  Finalmente! Os “Marítimos” até então incapazes de ver a terra sólida que rendilhava o mar imenso - esse Nada só aparentemente tão infinito, elevaram o pensamento e entraram noutra dimensão de compreensão e visão da realidade. Sabiam que muito além de si mesmos havia um propósito que não lhes pertencia, mas do qual eles faziam parte. Descobriram também que a humanidade universal tinha uma finalidade a qual era parte da Grande Obra e que mesmo essa também seria um patamar para outro lugar além de si mesma. Quando se deram conta de que não mais eram os mesmos que tinham levantado âncora em algum porto longínquo seus olhos abriram e desabrocharam como uma flor de lótus. Enfim! Desembarcaram para outros mistérios e princípios.

  O que restou da quilha do veleiro já sem velas e quase desfeito de tantas tormentas, pronto a dissolver-se nesse mar imenso, era um fantasma. Os restantes “Marítimos” juntaram os pedaços. Com suas roupas criaram novas velas e continuaram rumando os horizontes, cheios de inércias mentais e medos de dragões imaginários. A eternidade continuou a vogar pelo espaço vazio, até que um dia a chamada irrealidade acordasse nos seus corações.

Rosa DeSouza