À Procura de Mim Mesma

Daqui, neste jardim tão ínfimo quanto eu, olho o céu azul e me vejo desproporcionalmente pequena. Contudo... se a minha mente tem capacidade para imaginar esse universo, não será que por isso mesmo ela é tão grande quanto ele? O que há em mim que me liga a tudo, que me leva a imaginar possíveis que não me foram ensinados e a compreender a responsabilidade que tenho com esse mesmo Todo? Se sou existo e se existo tenho um objetivo maior do que a minha compreensão. Sei e sinto que sou parte de um Grande Plano o que me leva a crer que a minha vida passa a ter sentido e consequentemente a humanidade tem de ter um grande objetivo, pois nada do que existe é por acaso.

O acaso é a única coisa que apenas existe na falta de imaginação da inércia e da ignorância. O silêncio dorme para esquecer aquilo que um opaco véu ciumentamente encobre. Para quê? Para que verdades terrenas e universais fiquem para sempre no cofre dos segredos? Ele parece proteger inocências e tragédias, identificando-nos a cruzes ensanguentadas. Toneladas de rosas dormem com o silêncio, esquecendo as pétalas e mostrando apenas os espinhos. Porém, para quem tem os sentidos aguçados, um perfume inefável fala de outras realidades, de flores multicores e de vivências simples, mas com objetivos, preenchidas e realizadas.

Olho o universo com fitas métricas nas íris. Um de infinitamente tantos. Penso em trilhões de galáxias. Uma delas, a Via Láctea, com trilhões de estrelas. Vejo-me neste canto sombrio de uma de suas hélices, banhada pela estrela a que chamo sol. Revejo um pequeno planeta azul, não mais do que um grão de poeira rodando na imensidão do dogma despropósito. Continuo extasiada a pensar que sou parte deste visível e invisível que me rodeia. Penso nos milhões de quilômetros que faço a cada hora sentada nesta cadeira. Penso nos meus companheiros de viagem: a humanidade da qual sou parte. Sofro com ela, confundida entre bem e mal ou entre deuses e demônios, apenas produto de uma cultura que nos estrangulou a imaginação dizendo que só nos resta um monótono e estéril céu ou um inferno criado por um deus cheio de amor.

No absurdo do nada me encontro comigo mesma - um ser que se recusa a esta exígua exegese, porque assim mesmo e apesar de tudo tem tanta capacidade e perfeição. Todo o mecanismo deste organismo, toda a ânsia desta mente, toda a vontade desta fibra que me ligam a um Todo tão absoluto como relativo, me levam a acreditar que sou um microcosmo à imagem do macrocosmo, portanto tão completa quanto ele. Deixo de ser tímida, me inflamo de vontade. Dou início a uma formidável procura, enquanto coloco as asas da certeza. Sei que o importante não é saber todos os segredos. Apenas alguns. Aqueles que me tornam um ser humano digno do que sou. Em mim há estrelas e planetas, galáxias, universos paralelos e simples astros cadentes nos destroços do meteoro que me encandeou a ponto de me ajudar a encontrar o caminho do meu sol. Quero usar esse universo pessoal para encontrar a resposta à pergunta universal: quem sou? Para que existo? Qual a finalidade de tudo isto? Revejo a história que me foi ensinada, prisioneira de um cubo sem possibilidades. Todavia, dentro do sonho desejoso de Verdade, encontro a outra, a proibida. Fundações modificadas pelos opressores, os quais escondem realidades onde a capacidade humana é pecadora e condenável, para que eu nunca saiba quem sou e assim me humilhe a deuses e homens que caminham entre exércitos genocidas a bem de uma paz que não procuram e a qual nem saberiam administrar. A matéria deixou de transitar entre o espírito, tornando-se cada vez mais densa e perdida em subterrâneos cheios de minotauros e sem propósito. Se a própria galáxia tem um caminho definido como poderei eu apenas existir para me perder no labirinto em que a vida não vai além do absurdo?

Vivificando todo este realismo poético, termino por lembrar discussões imensas, intermináveis, inflamadas, de tanta gente preocupada com a existência de deuses. Alguns perguntavam, “Jamais algo te provou que deus existe?” Tanto tempo perdido, com insignificâncias... Que importa se deuses existem? Seriam eles mais poderosos se eu acreditasse? Teriam menos atributos se eu não os aceitasse? E se não existisse? Seria o meu objetivo diferente? Seria a minha atitude menos medrosa e por isso menos responsável? Seria eu mais ou menos verdadeira? Sei que esse deus antropomórfico vogando pelos céus não passa de um ser mitológico, adaptado a várias religiões. O importante não é saber se deuses existem, mas a minha atitude e responsabilidade perante mim mesma, os outros e o infinito, o qual é tão parte de mim como eu sou parte dele. O Amor infinito é o motor criador de todas as galáxias e dimensões. É essa Força consciente multidimensional que jamais poderei colocar na caixa das coisas perdidas ou sem importância. É a esse infinito que a minha mente ergue um altar que enfeita um longo corredor cheio de portas e sem muros. É percorrendo esse caminho que trilhões de probabilidades afloram, tornando-me capaz de ir além do intelecto.

Estou armada de novos olhos e percepções capazes de transformar-se em horizontes jamais imaginados. Na procura do esquecido ou na luta para desvendar o segredo que durante tanto tempo esteve guardado por milhares de dragões, me entrego a um exercício ao qual muitos poderiam rotular de místico, mas que não passa de um desejo transformado em bússola que me guia na procura do que sou e do que posso vir a ser. Se eu lhes pudesse dizer para fazerem o mesmo..

Texto retirado do livro “Fator Alma”

de Rosa DeSouza